Dulce Critelli é terapeuta existencial (sic) e professora de Filosofia da PUC-SP (uma instituição de respeito). Escreveu um artigo na Folha de S. Paulo (outra “instituição” de respeito). Mas, ao contrário da primeira instituição, a Folha (e/ou o caderno Folha Equlibrio de 11/02/10) deu espaço para uma acintosa manifestação de desprezo pela sofrida população brasileira. Pior: pela miserável e desamparada população idosa brasileira e pelos que um dia serão idosos.
Uma vez lido o artigo, imagino como a professora utiliza o espaço que a PUC lhe abre para lecionar Filosofia. Seus alunos podem muito bem ser leitores da Folha. Os miseráveis idosos brasileiros certamente não são leitores da Folha e muito menos alunos de Filosofia da PUC.
Abaixo, algumas pérolas do peculiar “existencialismo” (este sim, desprezível) da autora.
(...)
“Assombro nos olhos que redescobrem sua própria velhice.”
(...)
“O que angustia é não saber se poderemos garantir nosso próprio sustento, numa época em que teremos menos força de trabalho e mais carências.”
(...)
“Vinga na sociedade a ideia de que a velhice é um mal, um acidente e está sempre acompanhada de penúria e solidão.”
(...)“minha amiga se deu conta de que não podia impingir à sua velhice uma indigência que ela não teria. Bem ou mal, tem casa, INSS e condições de comprar um imóvel para renda.”
(...)
“De repente, nos pareceu que poderíamos ter algum controle sobre a velhice. Antecipá-la na imaginação era poder nos prover um bom viver.”
(...)
“Minha amiga tem razão quando diz que não podemos nos impor uma indigência que não teremos.”
(...)
Para quem quiser conferir e contextualizar os trechos acima selecionados, lá vai a íntegra do artigo (com algumas observações minhas em vermelho).
A GENTE SE ESQUECE (sim, de ficar com a boca fechada, por exemplo)
"Vanessa Redgrave, num filme que peguei pela metade e nem sei o nome, sai do banho e se olha no espelho. Assombro nos olhos que redescobrem sua própria velhice. "Eu me esqueço...", ela diz.
A gente se esquece....
Recordei a cena numa conversa com uma amiga sobre nosso envelhecimento. Não falávamos disso, um ano atrás. É estranho pensar que há um relógio contando o tempo do qual nos distraímos
.
Não posso dizer que o clima da conversa fosse a melancolia nem propriamente a tristeza -ou, ainda, a agonia da perda de um rosto jovem e de um corpo firme. Nem entramos naquele papo de que desejaríamos ter a sabedoria de agora com um corpinho de 20.
Estávamos preocupadas com garantias para um bom futuro e uma boa velhice. Minha amiga quer mudar o ritmo do trabalho. Quer mais horas para o lazer, os amigos, o filho, os parentes, o papo pro ar. Dizia que o fôlego, que aos 40 anos tinha de sobra, começava a faltar.
Acho que é verdade que o vigor vital diminui, mas o desejo por essas coisas às quais, quando nos tornamos adultos, nos entregamos com voracidade, acaba. Mais dinheiro, reconhecimento, bens, status, poder... Isso tudo vai perdendo a graça. A vontade muda de rumo.
Mas que a vontade refaça seu destino pode até ser bom. O que angustia é não saber se poderemos garantir nosso próprio sustento, numa época em que teremos menos força de trabalho e mais carências. Se haverá quem cuide de nós, se precisarmos. E que nos ame.
Vinga na sociedade a ideia de que a velhice é um mal, um acidente e está sempre acompanhada de penúria e solidão.
Nossos receios caminhavam por aí, até que minha amiga se deu conta de que não podia impingir à sua velhice uma indigência que ela não teria. Bem ou mal, tem casa (sic), INSS (sic) e condições de comprar um imóvel para renda (sic X sic). E pode gastar menos sem ter que viver em privação!
Essa constatação nos trouxe alívio, pois temos situação parecida. De repente, nos pareceu que poderíamos ter algum controle sobre a velhice. Antecipá-la na imaginação era poder nos prover um bom viver
Preparar o cenário da própria velhice é muito diferente do que já fiz até agora. Aprontar uma profissão, uma casa, um pecúlio... Tudo tem o tom de mais vida, de pujança, de produção. Preparar a velhice é arrumar a proteção.
Minha amiga tem razão quando diz que não podemos nos impor uma indigência que não, mas, ainda assim, não podemos afastar de nós a fragilidade e a finitude.
Entendi, agora, o que no filme "Feitiço da Lua" uma senhora, cujo marido a traíra com uma mulher mais jovem, quis dizer com isso: "Ele me trai porque tem medo da morte".
Apaixonar-se é começar. E todo amor se quer eterno. A paixão nos faz jovens, e a vida parece ficar mais longa e infinita. Por isso, a gente gosta mesmo é de preparar novos começos e se sente desajeitada em cuidar de fins."
Nenhum comentário:
Postar um comentário