quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Escárnio e desprezo pelos pobres

Dulce Critelli é terapeuta existencial (sic) e professora de Filosofia da PUC-SP (uma instituição de respeito). Escreveu um artigo na Folha de S. Paulo (outra “instituição” de respeito). Mas, ao contrário da primeira instituição, a Folha (e/ou o caderno Folha Equlibrio de 11/02/10) deu espaço para uma acintosa manifestação de desprezo pela sofrida população brasileira. Pior: pela miserável e desamparada população idosa brasileira e pelos que um dia serão idosos.


Uma vez lido o artigo, imagino como a professora utiliza o espaço que a PUC lhe abre para lecionar Filosofia. Seus alunos podem muito bem ser leitores da Folha. Os miseráveis idosos brasileiros certamente não são leitores da Folha e muito menos alunos de Filosofia da PUC.


Abaixo, algumas pérolas do peculiar “existencialismo” (este sim, desprezível) da autora.


(...)

“Assombro nos olhos que redescobrem sua própria velhice.”

(...)

O que angustia é não saber se poderemos garantir nosso próprio sustento, numa época em que teremos menos força de trabalho e mais carências.

(...)

Vinga na sociedade a ideia de que a velhice é um mal, um acidente e está sempre acompanhada de penúria e solidão.
(...)minha amiga se deu conta de que não podia impingir à sua velhice uma indigência que ela não teria. Bem ou mal, tem casa, INSS e condições de comprar um imóvel para renda.

(...)

De repente, nos pareceu que poderíamos ter algum controle sobre a velhice. Antecipá-la na imaginação era poder nos prover um bom viver.

(...)

Minha amiga tem razão quando diz que não podemos nos impor uma indigência que não teremos.

(...)

Para quem quiser conferir e contextualizar os trechos acima selecionados, lá vai a íntegra do artigo (com algumas observações minhas em vermelho).


A GENTE SE ESQUECE (sim, de ficar com a boca fechada, por exemplo)


"Vanessa Redgrave, num filme que peguei pela metade e nem sei o nome, sai do banho e se olha no espelho. Assombro nos olhos que redescobrem sua própria velhice. "Eu me esqueço...", ela diz.


A gente se esquece....


Recordei a cena numa conversa com uma amiga sobre nosso envelhecimento. Não falávamos disso, um ano atrás. É estranho pensar que há um relógio contando o tempo do qual nos distraímos

.
Não posso dizer que o clima da conversa fosse a melancolia nem propriamente a tristeza -ou, ainda, a agonia da perda de um rosto jovem e de um corpo firme. Nem entramos naquele papo de que desejaríamos ter a sabedoria de agora com um corpinho de 20.


Estávamos preocupadas com garantias para um bom futuro e uma boa velhice. Minha amiga quer mudar o ritmo do trabalho. Quer mais horas para o lazer, os amigos, o filho, os parentes, o papo pro ar. Dizia que o fôlego, que aos 40 anos tinha de sobra, começava a faltar.


Acho que é verdade que o vigor vital diminui, mas o desejo por essas coisas às quais, quando nos tornamos adultos, nos entregamos com voracidade, acaba. Mais dinheiro, reconhecimento, bens, status, poder... Isso tudo vai perdendo a graça. A vontade muda de rumo.


Mas que a vontade refaça seu destino pode até ser bom. O que angustia é não saber se poderemos garantir nosso próprio sustento, numa época em que teremos menos força de trabalho e mais carências. Se haverá quem cuide de nós, se precisarmos. E que nos ame.

Vinga na sociedade a ideia de que a velhice é um mal, um acidente e está sempre acompanhada de penúria e solidão.

Nossos receios caminhavam por aí, até que minha amiga se deu conta de que não podia impingir à sua velhice uma indigência que ela não teria. Bem ou mal, tem casa (sic), INSS (sic) e condições de comprar um imóvel para renda (sic X sic). E pode gastar menos sem ter que viver em privação!

Essa constatação nos trouxe alívio, pois temos situação parecida. De repente, nos pareceu que poderíamos ter algum controle sobre a velhice. Antecipá-la na imaginação era poder nos prover um bom viver


Preparar o cenário da própria velhice é muito diferente do que já fiz até agora. Aprontar uma profissão, uma casa, um pecúlio... Tudo tem o tom de mais vida, de pujança, de produção. Preparar a velhice é arrumar a proteção.
Minha amiga tem razão quando diz que não podemos nos impor uma indigência que não, mas, ainda assim, não podemos afastar de nós a fragilidade e a finitude.
Entendi, agora, o que no filme "Feitiço da Lua" uma senhora, cujo marido a traíra com uma mulher mais jovem, quis dizer com isso: "Ele me trai porque tem medo da morte".


Apaixonar-se é começar. E todo amor se quer eterno. A paixão nos faz jovens, e a vida parece ficar mais longa e infinita. Por isso, a gente gosta mesmo é de preparar novos começos e se sente desajeitada em cuidar de fins."

Nenhum comentário:

Postar um comentário